Por Sâmia Ribeiro - Cirurgiã-dentista e especialista em Programação Neurolinguística
Nos últimos anos, um sintoma inusitado virou pauta de consultórios e rodas de conversa: a perda do paladar após a infecção por Covid-19.
Se antes esse tipo de queixa era rara, hoje é uma das mais relatadas por pacientes no pós-Covid, junto da perda de olfato.
E, embora pareça um detalhe menor, não conseguir sentir o gosto dos alimentos impacta diretamente o bem-estar, o apetite e ate a saúde emocional.
Por que isso acontece?
O vírus SARS-CoV-2 afeta células responsáveis pelo olfato e paladar, provocando uma inflamação nas vias neurais que processam essas sensações. Em alguns casos, há lesões nos nervos cranianos que transmitem essas informações ao cérebro. O resultado é uma alteração na percepção dos sabores, que pode durar semanas ou ate meses após a recuperação da doença.
Estudos apontam que cerca de 45% dos pacientes apresentam algum grau de disfunção no paladar durante ou após a infecção. A boa notícia é que, na maioria dos casos, o organismo se recupera espontaneamente.
Mas o que fazer quando o paladar não volta? O que diz a ciência?
Diversas pesquisas recentes apontam caminhos para acelerar essa recuperação. Uma das abordagens mais eficazes é a chamada "terapia olfativa e gustativa", que estimula o cérebro a "reaprender" os sabores e aromas. O método consiste em cheirar óleos essenciais (como limão, cravo ou eucalipto) e experimentar alimentos com diferentes sabores básicos - doce, azedo, salgado, amargo e unami - todos os dias, por pelo menos 12 semanas.
Além disso, a suplementação de zinco e vitamina A pode ajudar, especialmente se houver deficiência desses nutrientes,essenciais para a regeneração das papilas gustativas.
Outras técnicas inovadoras, como o uso de laser de baixa intensidade (LLLT) na língua e palato, vem sendo testadas com bons resultados, por estimular a regeneração dos tecidos orais e dos nervos sensoriais.
O papel da saúde bucal e emocional
A boca é um reflexo da saúde geral. Inflamações gengivais, língua saburrosa ou até alterações na saliva podem intensificar o problema.
Por isso, uma avaliação odontológica é essencial para descartar fatores locais.
Mais do que uma questão física, a perda do paladar também afeta o emocional: comer é prazer, é memória, é vinculo.
Com base em princípios da Programação Neurolinguística, é possível orientar os pacientes a associarem emoções positivas a alimentos conhecidos, treinando o cérebro a reconectar experiencias sensoriais. Esse tipo de abordagem tem mostrado resultados surpreendentes.
Dica prática para estimular o retorno do paladar:
• Use aromas naturais (como óleos essenciais) e varie os sabores na alimentação.
• Faça refeições com atenção plena, focando na textura e temperatura dos alimentos.
• Mantenha a boca saudável com boa escovação e limpeza da língua.
• Evite cigarro, bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados.
• Procure ajuda especializada se o sintoma persistir por mais de dois meses.
Retomar o sabor da vida
Recuperar o paladar é, também, recuperar o prazer de viver. Em tempos em que tanta coisa mudou, sentir novamente o sabor de um café ou de uma fruta pode ser mais do que uma vitória clinica - é um símbolo de reconexão com o cotidiano e com o próprio corpo. Se você ou alguém próximo ainda enfrenta essa condição, saiba: há esperança, há ciência, e há caminhos possíveis para resgatar o sabor da vida.
SAMIA RIBEIRO - (11) 96919-8171
